Testemunhos
por + Jesus
Personagens
Ex-prostituta - convertida, 24
Aidético - muito magro, 23
Cristão - muito alegre, 19
Ex-alcoólatra - mais maduro, 32
Barman
Comentários
Cada ator estará em uma mesa separada e o barman constantemente preparando bebidas, sucos, etc.
CENA
Aidético: (Luz amarela - vai até o centro do palco de cadeiras de rodas e levanta-se).
"Bom lembrar que não deve se seguir a risca o roteiro, estejam a vontade para as adaptações, a pessoa pode ir apenas livremente no centro e já é o suficiente."
"Mulher! Olha esse menino, só brinca de boneca, é preciso dar um jeito nele, parece maricas!"
Mas nunca se importaram com o que se passava dentro de mim. Gostava de brincar de bonecas, sim! Fazer o quê? Era criança! Eu fazia o que sentia vontade, sempre me acertei mais com as meninas, os meninos eram brutos, violentos e só queriam jogar; eu era diferentes deles... e eu não me sentia culpado por isso, só que foi se tornando cada vez mais forte, e eu fui perdendo o controle. (Senta-se à mesa).
Ex-prostituta: (Luzes - sai do palco e refere-se a alguém da platéia)
"E aí gato? Algum programa para esta noite? Satisfação garantida!" Repeti essas frases milhares de vezes, acho que até muito mais, embora nem fossem um gato como ele (aponta para quem se insinuo). Às vezes apareciam uns velhos, gordos e bêbados. Tudo bem era minha profissão, tinha que dar prazer a quem quer que fosse. Não que eu gostasse do que fazia, mas já era costume, como muitos professores que quiseram ser cantores, mas continuavam a ser professores por anos e anos; ou ainda como muitos médicos que sempre sonharam em ser dublês, mas continuam a ser médico, como advogados que queriam ser locutores ou locutores que queriam ser advogados, a verdade é que ficam anos trabalhando no que não gostam. Eu era mais uma acomodada no hábito da profissão. (Senta-se)
Cristão: (Luzes - caminhando entre as mesas)
Cantarolando de forma debochada - "Se as águas do mar desta vida quiserem te afogar, segura na mão de Deus e vai. Segura na mão de Deus..."
Não conseguia enxergar verdade nisso, estava longe demais. Cresci ouvindo essa canção, mas eu me sentia completamente alienado, um peixe fora dágua, e pior é que me sentia culpado, não podia ser assim, mas era, fazer o quê? Eu até queria sentir-me integrado, mas não dava, eu até gostava do pessoal, mas me acertava mais com a galera do barulho, tinha minha turma certa, às vezes até rolava uma erva, mas ninguém podia ficar sabendo... e no Domingo eu estava lá... "SEGURA NA MÃO DE DEUS..." (Senta-se)
Ex-alcoólatra: (Cambaleando)
"Homem pra ser muito homem tem que beber sem parar, falar mais alto em casa..."
Meu primeiro porre foi quando eu era criança, não que eu tivesse bebido muito, mas o suficiente para uma criança de 8 anos de idade. Meu pai queria mostrar para os amigos que eu já era homem. Se grau de macheza se mede pela quantia que se empina, eu já fui muito macho, agora não sou mais, mas já fui.
Martini, Vodka, Run, Vermut... misturava tudo, perdi tudo...
Tinha quem dizia que era doença, tinha quem dizia que era pura sem-vergonhice, a verdade é que eu já amanhecia bêbado....
Vermut, Run, Vodka, Martini...
Barman: <
Tá... você já disse isso.
Ex-alcoólatra:
Tá, mas é que agora eu disse de trás pra frente.
Barman:
Ah! Bom.
Aidético: (Luzes - levanta-se)
"Nossa, como ele é delicado! Sensível" Com 16 anos conheci um rapaz; não podendo fazer nada, resolvi não ligar para o que os outros diziam e investir nessa relação. Quando ele percebeu que eu gostava dele, começou a evitar-me, mas eu ligava para ele, mandava cartas, cartões, até que começamos a nos encontrar, escondidos, é claro. Ficamos juntos por um ano, depois ele começou a bater em mim. Passava as noites em festas e eu em casa chorando... estava sofrendo muito, resolvi deixá-lo e voltei para a casa de meus pais, que a essa altura não estavam nem aí. Papai só trabalhava e mamãe só tomava chá e telefonava, e eu fiquei dois anos só assistindo televisão. Tinha uma única amiga e ela me convenceu a fazer o teste HIV. Tinha medo, mas fiz. Deu positivo. (Apagava a luz e volta para a mesa.)
Ex-prostituta: (Luzes - do balcão.)
"Não, por favor, eu não quero, não faça isso..."
Meu padrasto foi um animal. Eu tinha 12 anos, ia fazer o quê agora? (Pausa) (Na boca do palco.) Ei, gato, alguma programa pra esta noite? Satisfação garantida.
Barman:
Você já disse isso?
Ex-prostituta:
Ai, desculpe! É que por tantos anos repeti essa mesma frase. É o hábito!
Com 12 anos fui para rua, não podia mais encarar meu padrasto... sentia-me sozinha no mundo. Comecei a trabalhar com minha famosa frase, e assim tentava diminuir minha solidão.
Cristão: (Luzes - segredando escandalosamente)
"Mas como é que pode. O Anderson, logo ele, filho de pastor, isso não podia acontecer..."
Eu sou uma pessoa normal, como qualquer outra, também peco, ninguém pode sentir o que os outros querem que a gente sinta. Eu fui a muitas festas, às vezes perdia o controle, excedia-me na bebida, o baseado era cada vez mais freqüente, chegava sempre de madrugadão, olhos vermelhos, dormia na escola, as notas caindo, mas arrasava com a mulherada. A danceteria era pequena pra mim, e o pessoal da igreja apavorado, mas o problema era quando eu ficava sozinho em meu quarto...
Ex-alcoólatra: (Luzes - junto a primeira fileira)
"Tem um trocado pra me dar? Tenho que comprar leite para os meus filhos. (Para outro.) Ei moço, tem 50 centavos pra me dar? Eu preciso de uns trocados..."
Já passei por cada situação que nem é bom lembrar, isso sem falar das que realmente eu não me lembraria, nem que eu quisesse. Cansei de vomitar pelas esquinas, fazer xixi por todos os cantos, fiquei pelas sarjetas chorando minha má sorte, meu cérebro já não funcionava para mais nada, só lembrava de cenas do meu pai batendo na minha mãe, meus olhos viam tudo duplicado, isso sem falar nas dores de estômago, sentia próximo o meu fim, isso com 28 anos de idade.
ADAPTAÇÃO - EVANGELIARTE:
A partir deste momento eles irão dar o testemunho da conversão, seria interessante focos de luzes brancas, e até mesmo que estejam já de roupas trocadas para que haja uma mudança física também. Por exemplo, a ex-prostituta, poderia começar com meia calça, mini-saia, etc, e depois usar uma saia bem social com blazer , coisa deste tipo. (termina aqui a adaptação do Evangeliarte, o texto a seguir e continuação da inspiração da autora.)
Aidético:
Há quem ache que AIDS é um castigo de Deus, mas eu não vejo mais assim. Falo não a vejo mais assim, porque antes eu via, mas quem conhece um pouquinho a Deus, sabe que Ele nos ama demais para nos castigar assim. Um dia ele disse: "Isto é certo e isto é errado, se escolheres o errado, não viverás". Regras são regras. Sei que Deus me ama como ninguém e ele não queria que hoje eu fosse um aidético esperando pela morte, mas quebrei uma regra imposta. Não é castigo, é justiça de Deus. Sei que bem logo estarei com ele num novo corpo sem dor e sem doenças.
Ex-prostituta:
Sabe o que eu fico pensando? Por que não há prostitutas na igreja? (Levanta-se). As prostitutas são tão carentes e nem imaginam que são amadas por Deus (Tempo.).
Ei gato...!
Barman:
Ah! Não, de novo?
Ex-prostituta:
Ai desculpe, mas tente compreender.
O preconceito impede que olhemos com carinho para elas, são completamente marginalizadas, são amadas, mas elas não sabem disso, porque não há ninguém que lhes fale deste Amor.
Minha vida mudou completamente, o meu corpo que me alimentava e alimentava aos outros, não tinha valor nenhum, agora é o templo do Espírito Santo, sinto-me pura, purificada pelo sangue do Justo. Por que outras não podem sentir o que sinto?
Cristão:
Hoje continuo gostando de rock, para mim não há música mais alegre do que esta. Não sei como passei tantos anos numa igreja, cego, sem ver o que agora vejo. Ainda bem que Cristo mostrou-me a real antes, senão seria bem pior. Glória a Deus por ter mudado isso. Dois dos meus antigos companheiros estão tocando comigo e outros, infelizmente, continuam freqüentando os clubes da cidade. (Vai saindo.) Ah! E hoje quando chego ao meu quarto durmo em paz, plena paz.
Ex-alcoólatra:
Foi difícil, muito difícil, até que vi a mão de Deus, na mão de um homem. Na verdade Deus não possui outras mãos senão as humanas para demonstrar todo seu amor.
Resolvi estender minha mão, a única mão estendida em minha vida. Foi um processo difícil: tremia, vomitava, sangrava, tinha convulsões, precisava desintoxicar-me, e a mão esteve sempre comigo. Cristo dava-me esperança para continuar, acreditar que minha vida não precisava ser aquela miséria que vinha sendo.
Que mais mãos estejam à disposição para demonstrar o amor de Deus.
(Todos congelam, cada um em sua mesa. O barman prepara uma bebida, vai até a boca do palco, iluminado por um foco de luz branca.)
Barman:
Que sabor você quer? (Tempo.) para sua vida?
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